16 de setembro de 2014

FILHA, OSSO DURO DE ROER


Hoje comecei o dia a ler um artigo do Público que falava sobre o pouco tempo que os pais têm para educar os filhos (em Portugal). Verdade, verdadinha. Este ano mudei tudo para poder dedicar mais tempo à Zola, para poder acompanhar o seu crescimento, vê-la dar os primeiros passos, dizer as primeiras palavras. Não é fácil. Tenho quase sempre trabalho acumulado e pouco dinheiro, mas acho que vale a pena.
Hoje fomos buscá-la à creche, lemos 1000 livros, brincamos com 1000 jogos, depois ela jantou, estive a acompanhá-la o tempo todo, a ensiná-la a espetar o garfo no pêssego e a não espalhar 1000 bolinhas de couscous pelo chão da sala, cantamos 1000 músicas durante esse tempo. Depois foi a hora do banho e juntas tratamos de preparar tudo, inclusivé pôr mais 1000 gotas de óleo de alfazema na àgua e brincamos com os animais marinhos. Este tempo, não foi muito, foram três horas. Mas foram três horas boas, que nem toda a gente tem com os seus filhos. A seguir, pensei, pijama e cama. Mas ao contrário de ontem, que tinha adormecido tão bem, foi dia de 1000 gritos. Depois fiquei 1000 horas sentada numa cadeira ao pé do quarto, com as costas a latejar, e fui 1000 vezes ao pé do berço explicar-lhe muito calmamente que não ia acontecer nada diferente dos outros dias. É sempre igual, temos que fechar os olhos e dormir. Além disso os pais estão sempre atentos para o que ela precisa. Expliquei 1000 vezes, e ela atirou a chucha 1000 vezes para o chão em sinal de revolta. Gritou mamãaaaaaaa como se alguém desconhecido e feio a estivesse a obrigar a comer couves de bruxelas e morcelas. A ela, que não come carne. Aposto que todos os vizinhos ouviram. Engoli em seco, tentei endireitar as minhas pobres costas na cadeira de pau, e fui procurar toda a minha paciência. Encontrei algumas réstias, no meio do cansaço, juntei-as e construí um pedaço médio de paciência, e depois pensei "vai ter que chegar, der por onde der, isto bem esticadinho vai resolver a situação". Perder a calma ia estragar tudo. Ia piorar as enxaquecas. Tive que me manter firme e depois de a ter ido acalmar 1000 vezes ela lá adormeceu. Há dias assim. Precisamos de tempo para ajudar os bebés a ver como funciona o mundo, e se alguns percebem logo certas coisas, a outros temos que explicar que apesar de tudo o que há lá fora para descobrir, não podemos estar 24 horas por dia a explorar cada detalhe. Temos que parar e ficar no silêncio. Hoje fez 18 meses, entrou oficialmente na "adolescência dos bebés". É precisamente aquela fase em que os bebés gritam no supermercado e envergonham os pais com birras nos locais mais inusitados, declaram guerra pela sua independência. Não sabia nada sobre isso, mas já estou a tentar informar-me o melhor que posso, não vá ser surpreendida na curva. Na noite passada a punk Zola presenteou-nos com 12 horas de sono. Hoje não sabemos o que irá acontecer, mas também não estou ansiosa. Passaram 18 meses completamente loucos e em tudo diferentes do que esperava, mais umas horas sem dormir, se acontecerem, não farão mossa. Quando os bebés nascem não podemos adivinhar as surpresas que trazem, o tempo que precisam, como irão reagir ao mundo. Temos que viver um dia de cada vez. Parabéns bebé, dás-me muito que fazer, mas suspeito que tens uma personalidade vencedora, e só isso é demais. Com a breca, miúda rija!

P.S. (note-se que dada a personalidade desta miúda, eu entrei em formação a partir do momento em que ela nasceu. Não é apenas aprender a ser mãe, é aprender a ter um carácter de aço.)

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