25 de setembro de 2014

O PODER DA CARNE

Hoje, estava eu a cozinhar há uma hora, quando me ocorreu que durante a vida, e de forma descontraída, tomamos pequenas decisões que mais tarde têm grande impacto. Há 15 anos deixei de comer carne. Não foi nada difícil, houve uma série de factores que tornaram a decisão lógica, e como nunca fui grande amante de carne, num piscar de olhos foi posta de lado, até hoje.
Durante a infância era daquelas crianças chatas à refeição e muito criativas na hora das desculpas: "tem nervos", "tem pele", "tem gordura", "tem filamentos cor-de-rosa", "tem ossos", por aí fora. Os meus pais passaram as passas. Mas hoje olho para trás e acho que nasci a não gostar de carne. Deixar de a comer teve sabor a liberdade. Dar grandes garfadas e saber que nunca iria encontrar nervos, ou ossos, ou rins, ou miúdos, foi um alívio. Mastigar e saber que nada esquisito ia passar por ali trouxe às refeições um novo carisma. De resto é tudo igual, se tiver pressa também como fast-food, uma pizza, uma tosta de queijo...
Só que entretanto temos uma bebé glutona em casa, e na hora de cozinhar não se pode desenrascar uma tosta. A alimentação tem que ter pés e cabeça, e apesar de ela comer peixe várias vezes por semana, as refeições vegetarianas são pensadas e têm que ter todos os nutrientes.
Agora, passados estes 15 anos sem comer carne e habituada a cozinhar refeições dia sim, dia não, dou por mim a comparar o tempo que passo na cozinha com uma mãe que faça num instante uns bifinhos com arroz. Umas perninhas de frango na chapa com esparguete. Salsichas com ovo estrelado. Carne no forno. Nuggets. E a realizar que sou praticamente uma mãe amish. Porque passo horas a fazer empadões de cogumelos, pasteizinhos de lentilhas, almôndegas de grão, bulgur com puré de legumes, lasanha de beringela, por aí fora, e tudo leva uma imensidão de tempo, mesmo como antigamente. Não que isso me faça vacilar (sequer), mas a comida vegetariana boa, não é assim tão rápida de confeccionar, e por vezes revejo-me nas minhas avós, que para garantirem uma caldeirada bem apurada começavam às 9h da manhã de volta dos tachos.  E no dia-a-dia isso tem o seu impacto. Principalmente num planeta que gira à velocidade da internet.
Entretanto há efeitos colaterais inesperados. Nos dias em que na escola a ementa é carne, a Zola leva comida de casa. A educadora provou e gostou e parece estar disposta a lançar uma revolução no colégio, porque há outros meninos com dietas similares que se encontram sem opções de escolha. A verdade é que já era altura de considerarem variações nas ementas, não ser sempre carne, peixe, carne, peixe. Sei que há pessoas completamente carnívoras e que não dispensam o seu belo bife a boiar em sangue. Ou molho. Nada contra, cada um sabe das suas papilas gustativas. Mas isso não invalida que haja dias em que afinal é quinoa, que é um dos alimentos mais completos do planeta. Ou pizza de cogumelos. Ou lasagna de legumes.
Hoje não há fotografia do empadão de cogumelos porque como já expliquei aqui, fiquei sem máquina fotográfica. Está muito bom. Mas a Zola não quis comer. Mas amanhã vai levá-lo à mesma para a escola. Lá no fundo, no fundo, foi tudo uma grande fita, ela adora puré de batata, só que se calhar os míscaros foram um passo muito ambicioso. A ver vamos.


4 comentários:

  1. Olá

    Gosto bastante do que escreves. Não te conheço, nem dás a moldura toda, mas partilho de muitas ideias. Sinceramente acho que as pessoas que têm blogs escrevem mais para si, como apontamento mental do que para os outros, mas volta e meia deve ser fixe saber que se é lido e que se está mais ou menos em sintonia com os outros terráqueos.

    Quanto à comida, posso te contar que cresci vegetariana e realmente o facto de ser a única menina que comia diferente fez-me alvo de grande discriminação até ter idade para mandar todos à merda. Felizmente outras dietas alternativas ao mainstream bife/peixe, começam a ser mais populares (ou simplesmente porque há cada vez mais pessoal doente e alérgico por comer mal) e lentamente (muito lentamente) vão surgindo opções: é optimo que na escola da míuda estejam a pensar nisso. Quanto à comida demorar muito tempo, há sempre opções ricas nutricionalmente que se fazem num instante (eu adoro cozinhar mas sou uma impaciente na cozinha), mas para pratos mais compostos usamos as manhãs de fim de semana para confecionar e congelar para quando não ha tempo para mais do que as rotinas. Anyway, só mais uma pedra para o charco.
    Força

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    1. Olá Diana, obrigada pelas palavras queridas. O que contas da tua experiência sobre discriminação é uma coisa que por vezes me assalta as ideias. Não gostava que isso acontecesse, nem quero expor uma criança a isso, mas são opções e cá estaremos para contornar os obstáculos (se eles surgirem) e procurar soluções. Por enquanto está a correr tudo bem com a dieta, e na creche a reacção está a ser curiosa, sinceramente não esperava. Seria muito bom que dessem uma oportunidade a outras refeições que não peixe/carne, ainda por cima havendo mais crianças com dietas vegetarianas. Se conheceres alguns blogs com receitas vegetarianas eu aceito sugestões, na verdade, fora uma ou outra que procuro na internet para me inspirar, acabo por fazer tudo por intuição. Obrigada pelas dicas e beijinhos!

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  2. Hey mexicola. Eu tb cozinho por inspiração e irrita-me a cozinha com muitas regras ou muitos passos, mas às vezes experimento coisas novas principalmente deste site http://www.mynewroots.org/ (a palavra base é saudável, não havendo receitas de peixe nem carne). Há tb em português este http://compassionatecuisineblog.com/ que é vegan e tem bastante informação nutricional e este http://lepassevite.blogspot.pt/ tb é interessante. Hoje em dia, estou convencida que o importante é estabelecer uma dieta saudável, sem fundamentalismos, mas dar a liberdade de se tomarem outras opções. Keep on going!

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