15 de dezembro de 2014

Concertos nocturnos da punk Zola (bilhetes à venda no Ticketline)



Esta ilustração explica o meu humor hoje

Tudo começou quando ontem, melhor, tudo começou em Março de 2013, há quase 21 meses atrás. Mas "ontem" é importante para explicar os acontecimentos. Ontem a Zolita dormiu 14 horas. Fomos umas 5 vezes à cama, mas ela ficou lá essas horas todas. À tarde dormiu 3 horas de sesta. "Esteve doente e precisa de recuperar", pensei eu na minha maldita ingenuidade.
Esta noite, eram cerca de 4h da madrugada, quando começamos a ouvir palmas, à semelhança de um concerto de música cigana que tínhamos visto no Mezzo, durante a tarde. Vinham do quarto da punk Zola. No alinhamento do concerto veio a Linda Falua a plenos pulmões e num crescendo de voz que demonstrava cada vez mais confiança nos seus dotes musicais. Passaram-se cerca de 15 minutos neste forró nocturno e durante esse tempo todo eu soube que a história não ia acabar bem.
A seguir à Linda Falua ouvimos "mamãaaa, cocooooó". Eu pensei "Nossa senhora de Guadalupe, não, não, não, porquê?!". Foi lá o pai. Era bluff. É sempre bluff. Quando percebeu que ia voltar para a cama começou o interminável berreiro das 4h30. Nesta altura ainda nos tentámos impor, naquela posição de pais estóicos que não vão à cama. Aguentámos 30 minutos, mas ela aguentou mais.
Levantei-me a praguejar, vesti umas calças de pijama de Verão e decidi enfrentar a fera no local do crime. Sentei-me no chão ao pé do berço e com muita paciência fui-lhe dizendo que tinha que dormir. Ela simplesmente não tinha sono, porque tinha dormido demais. Há aqueles bebés para quem esse conceito, dormir demais, não existe, mas nesta casa, para mal dos nossos pecados, sim. Aos 33 anos eu já sei que vou para o céu.
Nisto, ela começou a dar várias justificações para estar acordada, uma delas eram os dentes. Na verdade estão-lhe a nascer todos os molares do mundo em simultâneo, mas no seio desta família, sabe-se que essa não é a explicação para o fenómeno all night party baby.
Depois de 10 minutos ali sentada, eu comecei a deixar de sentir os dedos dos pés. Logo a seguir a ciática começou a atacar, e passados 15 minutos eu já tinha a certeza que estavam -14ºC e iria provavelmente ser encontrada hoje de manhã debaixo de um montículo de neve, inanimada.
A dada altura percebi que o amiguinho de peluche era mais para dar umas arrochadas raivosas do que para servir de conforto, só o via voar no berço em todas as direcções tal era a ira por ter que ficar deitada.
Não sei quanto tempo passou, mas foi muito, uns 40 minutos. A respiração dela começou finalmente a ficar mais pesada. Nesta fase é um jogo de nervos. Um passo em falso e eu sei que posso deitar tudo a perder. Um estalido no soalho, um movimento antes do tempo, um avião que passa no momento errado, qualquer coisa é uma boa razão para recomeçar o processo.
No fim do penoso espectáculo os aplausos são para a mamã, ela está a dormir. Faço a vénia ao público para agradecer as salvas de palmas imaginárias mas estou tão rígida do frio que vou a fazer a vénia até à cama, porque não me consigo mexer.
Doiam-me os músculos todos, mas quando entrei na cama e fiquei com a cabeça debaixo dos três cobertores, percebi que os olhos não se iam fechar. Comecei a ouvir os carros das primeiras pessoas que vão para o trabalho, a ver a claridade a aparecer devagar, a ouvir dois ou três pássaros resistentes às manhãs congeladas...amaldiçoei o Inverno. Tinha que amaldiçoar alguma coisa.

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